Diego vive fazendo arte

Eu tinha, mais ou menos, sete anos de idade e, duas vezes por semana, andava pela rua de mãos dadas com minha mãe em direção ao seu local de trabalho – uma escola de dança na qual ela ministrava aulas de ballet. Lá chegando, sentava-me num banco e ficava olhando quatro bailarinas dançando numa sala gigantesca, sendo que, destas, eu apenas enxergava a parte de baixo de seus corpos (um pouco do quadril, pernas e pés) – a não ser que eu ficasse todo o tempo olhando para cima, como ficamos quando assistimos, da primeira fila, um filme numa sala de cinema: muito desconforto para minha pouca idade.

A passagem do tempo ampliou meu corpo em altura, largura e desejos, e fez com que eu percebesse a dança a partir de outra perspectiva. A altura modificara meu ângulo de visão, as novas proporções corporais que adquiri deixaram-me em dúvida se podia ou não ser bailarino, e o desejo fez com que me descobrisse um ser dançante. Mesmo sem me relacionar de maneira prática com a dança, como bailarino ou coreógrafo, ela estava presente como um tema que atravessava minha vida.

Eu nunca freqüentei a escola de cinema. Eu freqüentei o cinema. (Quentin Tarantino).

A afirmação do cineasta colabora para clarear a maneira com que se deu minha relação com a dança. Era prazeroso estar entre pessoas que discutiam e faziam dança, e já podia perceber neste meio as minhas investidas futuras.

Investi tanto que acabei por ter, com a dança, uma relação de paixão, violência e afeto.

Ainda não sei precisar o momento exato – talvez nem queira; talvez nem exista – em que me reconheci artista. Mas posso dizer que aos 16 anos estabeleci com a dança uma relação mais prática – no sentido mais tradicional do termo. Oito anos depois de práticas de dança compulsivas, passei a questionar tudo. Nada diferente de um menino de oito anos.

Questionava a maneira com que, no universo das práticas coreográficas, se processam os atos criativos. Não entendia por qual motivo a dança era usada como uma ferramenta de discursos sobre seres românticos e extraterrenos, sobre a angústia do homem moderno ou sobre a velocidade do mundo contemporâneo. Não entendia por qual motivo exigiam que eu treinasse diferentes técnicas de dança para preparar meu corpo para servir cada vez mais e da melhor forma na construção de sentidos e enunciados que eram externos à dança.

Eu sentia falta de alguma coisa, de modo que continuar a me relacionar com a dança daquela maneira não me satisfazia. Para mim, a dança sempre esteve em tudo. Fui criado assim. Ela estava na cozinha da minha casa quando minha mãe concebia suas coreografias; na sala, que vez ou outra se transformava em espaço de ensaio; no aparelho de som que emitia trilhas sonoras; no aparelho de televisão em que eram vistos espetáculos e ensaios; nas conversas que eu escutava enquanto jogava videogame; nos passeios com minha mãe. Muitas vezes o teatro foi meu parque de diversão.

Minha mãe (June Machado), seus amigos (somente reconheço a Sayô Pereira) e eu no sítio do meu tio

Com toda arrogância legítima de um pré-adolescente rebelde, passei a duvidar dos corpos dos homens treinados como o único meio para que a dança existisse. Queria mostrar que há dança na cortina da janela da cozinha. Ou melhor: que é possível fazer dança com o movimento da cortina da janela da cozinha – justamente aquele objeto sem treinamento algum em dança.

E foi assim que criei “Pas de Corn”, uma coreografia cujo corpo de baile é formado por pipocas.

Com Pas de Corn, transbordei da sala de aula e recuperei a dança que tinha deixado na infância. A partir desse momento passei a tê-la no meu computador, novamente na minha casa, com uma intimidade parecida com aquela que tinha quando era criança.

E é assim que venho desenvolvendo meu trabalho em dança: como uma brincadeira de criança, com toda a seriedade que lhe cabe. Vivo fazendo arte, virando a dança de cabeça-para-baixo, atirando corpos para fora de suas zonas de conforto e os provocando a girar, saltar, cair, inflar, esvaziar, ampliar, enfim, mover.

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One Comment on “Diego vive fazendo arte”

  1. Se Diego fosse bebê, seria um cyber- bebê. Curioso, daria MUITO trabalho!!! (como têm dado até hoje!). Entre os “melhores” do Diego, é o seu “botão”. Quero dizer, Diego é proprietário de um “botão” que ao acionar, resolve tudo! Minha relação com ele iniciou quando ele ainda era bebê. Era um pentelho! Lembro dele com sua mãe -June- (que era minha professora de balé na Escola de Bailados Tony Seitz Petzhold), em momentos, por exemplo, de encontros entre nós (bailarinos), June e Dna Tony discutíamos assuntos relacionados à escola e ele ficava enfernizando… sempre por baixo das mesas. Ele, também, minha filha Marina (com a mesma idade) dividiram este espaço de inferno prazeroso, com a diferença que ele que passava sobre e puxava os nossos pés o tempo todo, enquanto Marina, brincava, comportadamente, com suas bonecas. Diego é isto, um reencontro que a sua infância nos proporcionou!


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