A infância dancística da Jussara

A dança é que fez contato comigo, e muito cedo. Segundo minha mãe, a sua barriga foi o meu primeiro palco.

Tenho memórias muito vivas da minha primeira infância. Apressada, eu não engatinhei. Eu me movia em direção do cantalorar da minha mãe, às vezes como uma lagartixa, outras, como bolinha, minhoca ou pedrinha. Segundo ela, quando recém nascida, ao ouvir uma canção, eu já exibia o gosto pela dança. E não foi diferente depois, a partir dos três anos, quando eu já tinha um repertório de dancinhas bem próprio. Eu observava os gestos das pessoas que me cercavam: familiares, vizinhos, passantes da rua e amiguinhos do bairro. Minhas primeiras dancinhas aprecia6das foram inspiradas nas figuras da Wanderléia, do Wanderlei Cardoso e do Topo Gigio, em tempos em que a televisão era em preto e branco e as transmissões aconteciam apenas em alguns horários do dia. Assim como a TV, tudo era motivo: um desenho, uma boneca, um carrinho de lomba e uma visão qualquer, espontaneamente, se transformavam em linguagem de dança. Eu me servia de tudo que estava a minha volta para compor os figurinos e as situações: roupas e adereços da minha mãe e irmãs e objetos domésticos. A garagem da nossa casa era o meu espaço de criação. Nela, já aos cinco anos, eu dava aulas para minhas amiguinhas e ensaiávamos apresentações baseadas em brincadeiras cotidianas. Muitas vezes, subíamos em árvores ensaiando quedas súbitas, bem como fazíamos casinhas dos restos das árvores que eram podadas no outono… tudo isto, para dançar. Já no verão, eu e minhas irmãs aproveitávamos os córregos das chuvas nas calçadas para deslizar nossos corpos livremente.

Marido e pai apaixonado, meu pai me ensinou a desenhar e a dizer palavras bonitas. Somos cópia fiel um do outro: pernas, braços, unhas, gostos, brinquedos, temperamento e curiosidade. Nossos desenhos, até hoje, são dinâmicos como no passado. Não apenas desenhamos formas, mas inventamos histórias que se movem, sempre re-inventando os corpos: ele faz a cabeça, eu os braços, ele a perna, eu o tronco, e assim, passamos compondo e transpondo desejos compartilhados. As palavras bonitas que aprendi eram como sopros móveis. Nenhuma delas era somente citada oralmente, mas também reproduzida em forma corporal feito um jogo de adivinhação. Coisas que somente eu e meu pai sabemos traduzir enquanto linguagem, da forma como fazemos até hoje.

Minha infância “dancística” também foi nutrida pelas minhas duas irmãs maiores. Enquanto a Vânia tocava piano e a Dulce cantava, eu, a caçula, dançava. Formávamos um trio e tanto! Éramos a atração artística das redondezas nas tantas cidades que moramos na infância.

Enquanto meu pai produzia o trio, a minha mãe puxava as palmas entusiasmando os convidados: parentes, vizinhos e curiosos. Aos seis anos ingressei no balé. Minha mãe costurava e bordava os meus tutus e meu pai sentava na primeira fila do “festival” da escola de dança. Eu era (como ainda sou), muito metida! Rodopiava nas pontas já aos sete anos como uma louca desvairada (adorava girar). Mas gostava mesmo era de inventar danças diferentes! Minha primeira exibição pública foi com o pizzicato de Sylvia de Chopin aos sete anos, quando me recusei a fazer coque e a usar meia calça, e por isto, dancei com os meus cabelos ornados em cachos e com as pernas desnudas.

Já a minha primeira coreografia “oficial”, aos doze. Digo “oficial” porque a dancei no festival da escola com a permissão da professora de dança (maitre). Era uma versão solo da Gata Borralheira. De cabelos soltos, figurino (fantasia) esfarrapado e uma vassoura gigante como assessório coreográfico, a peça surpreendeu o público, dado que a proposta para a época era (digamos) um tanto audaciosa!

Minha infância foi assim: um contínuo descobrimento da vida via linguagem “corpo inventado”. Talvez seja por isto que me descobri, na vida adulta, mais como coreógrafa do que como bailarina, embora tenha atuado como bailarina até os meus 30 anos, já com minhas duas filhas nascidas: Mariana, hoje, com 30, e Maria Clara, com 25. Olhem elas aí, ainda pequeninas!

Esta sinopse da minha infância é que me levou a conceber o TÓIN. Sou encantada com a possibilidade de lidar com o bebê e seu potencial de assimilação, tendo o seu cuidador como o transmissor de raras experiências. A construção de uma visão de mundo mais humanizada, mais criativa, mais entusiasmada, e sim, mais audaciosa, me entusiasma. TÓIN é isto: um brinquedo aperfeiçoado na experiência infantil de pessoas que, como eu, vivem seus corpos de forma inspirada!

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