As memórias poéticas da Lauren

Esses dias estava lendo um texto intitulado “A Dança Infantil enquanto Expressão” (Rozana Aparecida da Silveira; Gustavo Levandoski; Fernando Luíz Cardoso), ao qual me reportarei mais vezes, e me deparei com a seguinte passagem: “Consolidou-se que desde o período intra-uterino os movimentos são observados e revelam o ritmo peculiar, o que denuncia a universalidade da predisposição para a dança”. Fantástico, foi o que pensei naquele momento, pois é assim que vejo como surgiu a dança na minha vida e, consequentemente, descubro-me enquanto bailarina.

Minha história “dancística” vem desse período, quiçá de antes. Praticamente toda minha família está envolvida de alguma forma com a arte – pintura, dança, canto, música – e todos adoram dançar. Acredito que na gestação da minha mãe eu já sentia essa energia artística percorrendo suas veias.

Lembro-me de, ainda bem pequenina, eu e minha irmã olharmos minha mãe se arrumando para suas aulas de jazz. A vontade de participar dessa dinâmica já era latente, tanto que pedimos para minha avó, cuja profissão era de costureira, fazer malhas iguais para todas nós, incluindo uma boneca que eu não permitiria que ficasse de fora dessa “festa”. Minha mãe já prestava seu incentivo à arte e, talvez, sem nem saber.

Minha irmã começou a frequentar as mesmas aulas de jazz e eu passei a acompanhá-las. Como tentava dançar junto, perceberam que estava na hora de me apresentarem o ballet, e a lembrança de minha primeira apresentação é nítida ainda hoje, inclusive as coreografias e as músicas ficaram tatuadas na memória. Credito essa doce recordação às afetuosas e divertidas aulas da minha primeira professora de dança.

“O Movimento é a característica que denuncia a própria vida e é através dele que se deve acompanhar o desenvolvimento infantil, para que façam emanar o gosto e a graça da dança. O mecanismo de adaptação existe na criança e encontra sua máxima expressão na infância, como processo absolutamente natural e espontâneo, e precisa, portanto, apenas de reforços daqueles que se relacionam mais diretamente com ela para que a expressão corporal se manifeste com toda sua plenitude.”

São vários os momentos da infância que me vêm à lembrança. Dentre eles um, que estava escondido numa das gavetas da memória, mas que foi resgatado há algum tempo numa descontraída conversa com minha prima Tatiana da Rosa (para aqueles que não a conhecem, ela é bailarina, coreógrafa, professora do Curso de Graduação em Dança da UFRGS). Pois bem, na comemoração do seu 8º aniversário lembrou-me ela que a nossa melhor brincadeira foi a de juntarmos cadeiras para fazermos de barra, enquanto eu “ministrava”, com meus 10 anos, aula de ballet para a aniversariante e convidados. A idéia era brincar dançando conforme a música. E sempre que nos encontrávamos brincávamos de sermos bailarinas. Desde então, nem ela e nem eu paramos mais de dançar.

“Dança é expressão, é significado, é movimento, é vida. Para a criança, a dança é inerente ao seu próprio desenvolvimento. (…)Paralelamente às outras artes, a dança desenvolve uma extensa área da capacidade intelectual, que proporciona às crianças um modo especial de usar sua imaginação para explorar suas experiências no mundo, dando-lhes sentido.”

Nesse processo de desenvolvimento da linguagem corporal, destaco minha família como a grande incentivadora da natureza da experiência e, por que não dizer, educadora, pois qualquer encontro familiar – eventos comemorativos como aniversários, Natal, Páscoa, ou até mesmo nas férias – era motivo para se elaborar coreografias, com direito a figurino, regadas a muitos e divertidos ensaios; realizar peças de teatro, com enredos elaborados pelas crianças; sessões musicais, etc. Contamos sempre com a paciência e boa vontade dos integrantes de mais idade da minha família, que com seus aplausos e sorrisos nos motivavam a “brincar” mais, ampliando nossa criatividade e, consequentemente, a dimensão do nosso mundo.

Lauren Lautert

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3 Comentários on “As memórias poéticas da Lauren”

  1. Sim… Lauren é uma poeta! Mais, uma poeta do movimento. A corporeidade da Lauren é atemporal… um percurso de experiências invejável (no bom sentido). Seus movimentos são verdadeiras lições, que acaso escrevesse sobre, titularia: “Confissões de uma dança extraordinária”. A Lauren é um dossiê, uma história de amor e dedicação, mais, um autêntico e vigoroso exemplo de uma dança que se recicla, permite e se renova. Lauren e sua misteriosa potência!

  2. tatiana rosa disse:

    Minha primeira experiência forte com a dança foi com a Lauren. O primeiro espetáculo de dança que assisti foi a apresentação de final de ano dela e da Tininha, a irmã dela. Lembro de ter ficado muito impressionada e intrigada com o fato de todas as crianças “adivinharem” exatamente o que as outras estavam fazendo, de conseguirem dançar todas juntas! Também lembro de ter perguntado para a minha mãe como aquilo seria possível.
    Um tempo depois comecei a estudar ballet e então, nos ensaios para a minha apresentação, comecei a compreender como isso funcionava. Mas não foi menos impressionante perceber que alguma coisa em mim (provavelmente eu não conseguia formular “meu corpo”) era capaz de relembrar a coreografia aprendidada na aula anterior. O corpo de movia sozinho com a música!

    A dança da Lauren que assisti era exatamente com o figurino da foto acima. Muito ensaiamos com ele, né Lauren? Criamos uma apresentação inteira – da qual a Lauren era a diretora – e a música desse figurino dizia: “Eu sou a florista, estou vendendo flores (bis) (…) Queres uma flor? dá-me um tostão. Eu não quero flor, eu quero é teu coração”.

    Háhá, é isso que dá puxar o fiozinho da memória, ainda mais de coisas que criaram tanto encanto. É, Lauren, a coisa não nos largou mais… Estou te devendo as fotos que tenho. Numa tu está com o pé esticado, noutra estou na meia ponta com o braço em segunda. A gente não perdia chance de deixar uma “pose” de dança aparecer!

    super beijo!
    tati


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